A Turquia está a acelerar o seu empenhamento no Líbano. No espaço de algumas semanas, o primeiro-ministro Nawaf Salam e o presidente Joseph Aoun foram recebidos por Recep Tayyip Erdogan, enquanto Ancara multiplicou os sinais para um papel mais ativo na segurança, reconstrução e relações entre Beirute e Damasco. Este aumento do poder surge num momento em que as tensões entre a Turquia e Israel se intensificam na Síria, tanto que várias análises israelitas apontam agora para o risco de um confronto futuro entre as duas potências regionais.
Ancara acelera seus contatos com Beirute
O movimento é primeiro diplomático. Nawaf Salam foi recebido em Istambul em 10 de julho por Recep Tayyip Erdogan. Ambos os líderes discutiram as relações bilaterais, a situação regional e o apoio turco à estabilidade no Líbano. O Presidente turco declarou então que queria intensificar os contactos políticos e prosseguir a ajuda humanitária, salientando o valor de melhorar as relações entre o Líbano e a Síria.
Três semanas depois, em 30 de julho, Joseph Aoun viajou para Ancara para sua primeira visita oficial à Turquia desde sua eleição. Recep Tayyip Erdogan então ampliou o escopo da cooperação proposta. Ele afirmou que a Turquia estava seguindo os esforços para acabar com os ataques israelenses e que queria contribuir para os arranjos para proteger a soberania libanesa. Ancara também anunciou seu desejo de continuar seu apoio humanitário, técnico e institucional.
A sucessão destas duas visitas mostra que a Turquia já não limita a sua relação com o Líbano à diplomacia convencional. Procura colocar-se nos dossiers em que se encontra hoje o equilíbrio do país: segurança do Sul, reconstrução, relações com a Síria e capacidade do Estado libanês de recuperar o controlo do seu território.
Bilal Erdogan e Ibrahim Kalin, dois registos diferentes
Esta estratégia também passa por diferentes canais. A imprensa libanesa referiu-se aos deslocamentos de Bilal Erdogan e Ibrahim Kalin no Líbano. Até que essas visitas sejam formalmente confirmadas em sua programação e conteúdo, elas devem ser tratadas como projetos anunciados ou reportados, não como eventos reais.
Bilal Erdogan, filho do presidente turco e envolvido em várias estruturas civis e educacionais, estaria associado principalmente a um aspecto humanitário e social. Essa visita seria parte da diplomacia de influência que a Turquia vem desenvolvendo há vários anos através de agências de ajuda, fundações, programas educacionais e ações de apoio às populações afetadas por crises.
O caso de Ibrahim Kalin é de outra natureza. O chefe do MIT, o Serviço de Informações turco, ocupa uma posição directamente relacionada com questões de segurança regional. Em 6 de agosto, recebeu em Ancara o ministro sírio dos Negócios Estrangeiros Assaad al-Shaibani. De acordo com as informações prestadas no final da reunião, os debates incluíram a evolução do Líbano e das relações sírio-libanesas.
Uma possível visita de Kalin a Beirute teria, portanto, um impacto político e de segurança muito mais forte. Poderia permitir que Ancara lidasse directamente com a situação no Sul, com os mecanismos de des-escalonamento e, segundo relatos na imprensa, com a possibilidade de um diálogo em torno das tensões entre o Estado libanês e o Hezbollah. Nesta fase, porém, nenhuma mediação formal turca neste processo pode ser considerada como adquirida.
Sul do Líbano entra em interesse turco
A Turquia tem várias razões para querer envolver-se mais na questão do Sul. O primeiro diz respeito à segurança regional. Ancara considera agora que as operações israelitas no Líbano e na Síria têm um impacto directo nos seus próprios interesses. Recep Tayyip Erdogan disse publicamente em junho, acreditando que os ataques israelenses contra esses dois países acabaram também ameaçando a Turquia.
O segundo é o vazio diplomático que pode ser criado em torno dos acordos de segurança libaneses. Ancara indicou sua vontade de participar em iniciativas que acompanharão a transformação ou o término do papel atual da Final. Nesta fase, a Turquia não tem um mandato específico no terreno libanês, mas procura claramente estar presente nos debates sobre a arquitectura de segurança que poderão surgir.
Isto não significa que Ancara possa substituir Washington. Os Estados Unidos continuam a ser centrais nas negociações entre o Líbano e Israel, incluindo a retirada de Israel, o destacamento do exército libanês e os mecanismos de verificação. A Turquia pode oferecer canais adicionais, facilitar alguns diálogos ou apoiar a reconstrução, mas não controla decisões israelitas ou garantias americanas.
Síria como principal alavanca da Turquia
A principal vantagem estratégica da Turquia reside na Síria. Desde a queda de Bashar Al-Assad, Ancara tem tido considerável influência sobre o novo poder de Damasco. Participa na formação de certas forças, apoia a reconstrução das instituições sírias e mantém um estreito diálogo político e de segurança com os líderes do país.
Esta posição dá à Turquia uma influência especial sobre a questão libanesa. As relações entre Beirute e Damasco continuam a ser responsáveis por questões sensíveis: fronteiras, segurança, refugiados, contrabando, pessoas desaparecidas, cooperação económica e circulação de mercadorias. Ao incentivar uma aproximação entre as duas capitais, Ancara pode procurar estabilizar o seu ambiente regional, consolidando o seu próprio papel de poder de mediação.
Recep Tayyip Erdogan incentivou explicitamente o Líbano e a Síria a desenvolver boas relações de vizinhança durante seu encontro com Nawaf Salam. Ele repetiu esta provisão antes de Joseph Aoun. O assunto foi então discutido entre Ibrahim Kalin e o ministro sírio dos Negócios Estrangeiros.
Esta continuidade é significativa. Mostra que o caso libanês está agora integrado na política síria da Turquia, e não tratado separadamente.
Israel e Turquia enfrentam desafios crescentes na Síria
É precisamente esta influência turca na Síria que hoje alimenta as tensões com Israel. Em 18 de agosto, o exército israelense atacou a base aérea Abu al-Dhour no noroeste da Síria algumas horas depois de uma delegação turca ter visitado o local. Israel alegou que queria impedir uma implantação militar turca que considerasse uma ameaça potencial.
Damasco negou que tal destacamento fosse planejado. Ancara rejeitou acusações israelenses e denunciou uma tentativa de desestabilizar. O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, também aumentou os avisos contra a expansão militar turca na Síria.
Este episódio ainda não constitui um confronto direto entre os dois países, mas mostra que sua rivalidade mudou de natureza. Já não se limita a Gaza, às relações com o Hamas ou às trocas de declarações. Abrange agora questões de presença militar, bases, espaço aéreo e equilíbrio estratégico na Síria.
Várias análises israelitas começaram a tratar a Turquia como uma ameaça regional a longo prazo. O Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Israel levantou, em alguns cenários, a possibilidade de que a fricção política e militar na Síria pudesse chegar ao confronto direto. Na imprensa israelense, outras análises apresentam a Turquia como um rival estratégico crescente à medida que a influência iraniana recua.
No entanto, seria excessivo apresentar uma guerra israelo-turca como inevitável. O próprio Ministro turco dos Negócios Estrangeiros, Hakan Fidan, afirmou em Julho que não havia razão para conduzir a um conflito aberto. Ancara continua a ser membro da OTAN, mantém importantes relações com Washington e procura impedir que a concorrência regional se transforme em guerra direta.
Líbano em meio a uma rivalidade mais ampla
O crescente interesse da Turquia no Líbano deve, portanto, ser lido neste concurso. Ancara quer reforçar a estabilidade libanesa, mas também quer impedir que a influência israelita se espalhe de forma desequilibrada na Síria e no Mediterrâneo oriental. Assim, o Líbano torna-se um espaço adicional onde estratégias regionais mais amplas se cruzam.
Esta dimensão pode reforçar o interesse da Turquia na reconstrução. As autoridades turcas anunciaram a sua disponibilidade para contribuir para as zonas afectadas pela destruição, sem especificar nesta fase montantes pormenorizados, calendários ou projectos. A ajuda humanitária já é um dos instrumentos tradicionais da presença turca na região.
No caso libanês, a reconstrução oferece menos conflitos do que questões de segurança. Permite a Ancara apoiar as instituições, melhorar a sua imagem entre as pessoas e reforçar as suas relações com o Estado sem intervir directamente nos mais sensíveis equilíbrios internos.
Influência visível para além das instituições
A presença turca não se limita aos palácios presidenciais e aos contactos intergovernamentais. Em várias partes do Líbano, incluindo Trípoli, Akkar, Saida e ao redor do acampamento Beddawi, há sinais regulares de simpatia com a Turquia e Recep Tayyip Erdogan em alguns círculos políticos, religiosos ou populares.
Essas manifestações devem ser interpretadas com cautela. A presença de bandeiras turcas, retratos de Erdogan ou associações próximas às redes turcas não mede estatisticamente a influência de Ancara em toda uma cidade ou comunidade. Só mostra que existe um capital de simpatia em certos sectores, em particular nas regiões sunitas onde a Turquia desenvolveu durante vários anos diplomacia cultural, educativa e humanitária.
Para Ancara, esta âncora social pode complementar as relações oficiais. No entanto, não substitui o peso dos atores tradicionais libaneses, sejam eles partidos políticos, poderes do Golfo, França, Estados Unidos ou Irã.
Até onde pode ir Ancara?
A Turquia agora tem várias cartas. Ela tem relações diretas com Joseph Aoun e Nawaf Salam. Tem acesso privilegiado ao novo poder sírio. Tem importantes capacidades humanitárias, económicas e de segurança. Seu chefe de inteligência segue diretamente os arquivos libaneses e sírios, enquanto Recep Tayyip Erdogan anuncia publicamente sua vontade de participar na estabilização libanesa.
No entanto, os seus limites são igualmente claros. Ancara não controla decisões israelenses e suas relações com Israel se deterioraram drasticamente. Seu crescente envolvimento na Síria pode até tornar Israel mais suspeito de um papel turco no Líbano. A Turquia também não pode substituir os Estados Unidos nos debates sobre a retirada de Israel ou impor um compromisso apenas ao Hezbollah.
A sua influência dependerá, portanto, da sua capacidade de transformar os seus muitos contactos em funções concretas: ajuda, reconstrução, facilitação entre Beirute e Damasco, apoio às instituições libanesas ou participação num futuro mecanismo de segurança.
Os próximos movimentos turcos anunciados, se confirmados, ajudarão a medir esta ambição. Uma visita predominantemente humanitária de Bilal Erdogan seria um sinal político e social. Uma visita de Ibrahim Kalin, por outro lado, mostraria que a Turquia pretende entrar mais directamente nas questões de segurança do Líbano. É nesta diferença que será medido o verdadeiro alcance da ofensiva diplomática de Ancara.



