8 octobre 2026
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Keynes traiu: quando o medicamento se tornou a doença

O défice orçamental destinava-se a permitir aos Estados ultrapassar as crises económicas. Tornou-se permanente, alimentando uma espiral de dívida e juros. Bernard Raymond Jabre analisa essa deriva do pensamento keynesiano, os cálculos eleitorais que o mantêm e as reformas necessárias para preservar as finanças públicas futuras.

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Cobramos a dívida. Olhamos para os milhares de milhões acumulados nos Estados Unidos, França, Itália, noutros países da Europa, e perguntamo-nos até onde isso pode ir.

Mas a dívida não é doença. Ela é o sintoma.

A doença é o défice orçamental que se tornou permanente.

Temos de voltar para Keynes. John Maynard Keynes nunca imaginou o déficit como uma forma normal e eterna de governar. Seu raciocínio foi primeiro o do ciclo. Quando a economia entra em colapso, o investimento privado desaparece, o desemprego aumenta e o medo paralisa as empresas e as famílias, o Estado deve assumir. Ele gasta, investe, aceita temporariamente o déficit. A política monetária pode também tornar-se acomodativa.

Era um medicamento.

Um antibiótico econômico quando um organismo está doente.

O problema é que acabamos tomando o antibiótico todos os dias.

O déficit, que teve de responder aos maus anos, se estabeleceu nos bons. Já não financia apenas guerras, recessões, grandes investimentos ou desastres. Também financia o funcionamento quotidiano do Estado: administrações, pensões, prestações sociais, defesa, subsídios, burocracias e, por vezes, estruturas cujos custos não estão realmente em jogo.

E uma vez que é necessário financiar a diferença entre o que o Estado gasta e o que ele coleta, ele toma emprestado.

A mecânica é quase infantil simplicidade:

défice, dívida, juros, novo défice, nova dívida.

Por muito tempo, funciona. Até é politicamente maravilhoso.

A dívida torna possível dar hoje sem cobrar imediatamente o preço correspondente. Permite que o eleitor presente seja satisfeito enviando parte da factura ao futuro eleitor.

É aqui que Keynes encontra um problema que não pretendia resolver: o do tempo democrático.

Quatro anos contra quarenta anos

A dívida é pensada de mais de vinte, trinta ou quarenta anos. Um governo está a pensar nas próximas eleições.

Nos Estados Unidos, quatro anos separam duas eleições presidenciais e, no meio, as provas intercalares já estão lembrando ao governo que ele será julgado. Na Europa, os mecanismos são diferentes, mas a restrição continua a ser a mesma: por que hoje suportar o custo político de uma reforma cujos benefícios podem aparecer sob o próximo governo?

Reduzir uma despesa imediatamente cria um descontentamento. A remoção imediata da administração provoca resistência. Reformar uma pensão envia imediatamente as pessoas pela rua abaixo.

Por outro lado, pedir emprestado quase não faz barulho.

Talvez esta seja a verdadeira culpa da dívida pública: separa politicamente as despesas do seu pagamento.

Aos poucos, cada um defende a sua peça de estado. O ministério defende o seu orçamento, a administração o seu pessoal, o beneficiário a sua vantagem, o líder político o seu eleitorado. Tudo isto é humano. Tudo isto é mesmo racional tomado separadamente.

Mas a adição de todos esses comportamentos racionais pode se tornar coletivamente irracional.

Ninguém quer sacrificar-se. Depois pedimos emprestado.

Quando a dívida financia o presente

Nem todas as dívidas valem a pena.

Um Estado que toma emprestado para construir infraestrutura produtiva transmite à próxima geração uma dívida, é claro, mas também um ativo.

Um estado que toma emprestado para passar por uma depressão pode evitar o colapso de sua economia.

Mas quando um estado pede emprestado ano após ano simplesmente para pagar pelo seu estilo de vida, a natureza da dívida muda.

A próxima geração recebe a fatura sem necessariamente receber o ativo correspondente.

É esta distinção entre dívida de investimento e dívida dos consumidores que perdemos gradualmente.

E os números americanos começam a ficar preocupantes. O Escritório de Orçamento do Congresso estima o déficit federal dos EUA em aproximadamente 1.900 bilhões de dólares em 2026, ou quase 5,8% do PIB. A dívida pública situa-se em cerca de 101% do PIB e, nas actuais projecções da OBC, continuará a crescer fortemente nas décadas seguintes.

O mais importante não é a própria figura. É a trajectória.

Não existe um número mágico — 100%, 120% ou 150% do PIB — do qual um país falharia automaticamente. O Japão é suficiente para provar o contrário.

A verdadeira questão é muito mais simples: a dívida está crescendo mais rápido do que a capacidade da economia de servi-la?

Se a resposta for sim, mais cedo ou mais tarde o problema aparece.

O Líbano devia ter-nos ensinado alguma coisa

Infelizmente, nós libaneses sabemos o fim desta história.

Isto não significa, obviamente, que os Estados Unidos ou a França sejam o Líbano. As estruturas económicas, as moedas, as instituições e a capacidade de financiamento são incomparáveis.

Mas o Líbano ensina-nos algo mais universal.

Uma crise da dívida não começa no dia do incumprimento.

Começa muito antes, quando todos sabem que o modelo precisa ser reformado, mas todos preferem ganhar mais um ano.

Então pedimos emprestado para evitar sacrifícios. Em seguida, um pede emprestado novamente porque o primeiro empréstimo evitou precisamente o sacrifício.

E o sucesso do financiamento é paradoxalmente uma prova de que podemos continuar.

Até ao momento em que aquele que empresta começa a duvidar.

Então o mercado não diz necessariamente: « Não te empresto mais. » Ele começa dizendo: « Eu te empresto, mas mais caro. »

E é aí que a mecânica se torna perigosa.

Mais dívida leva a mais juros. Mais juros aumentam o défice. O défice exige mais dívida.

A dívida começa a compor a sua própria dívida.

O sacrifício escolhido ou o sacrifício sofrido

Por conseguinte, o custo do Estado Ocidental deve ser reestruturado.

A palavra « reestruturação » não significa demolir o estado social, abandonar os mais fracos ou abolir os serviços públicos essenciais.

Significa escolher.

O que é indispensável? O que é que já não existe? Que administrações podem ser fundidas? Que privilégios se tornaram injustificáveis? Que despesas está a planear o futuro e quais são usadas apenas para manter o presente? Onde é que a tecnologia pode substituir estruturas administrativas que se tornaram demasiado complicadas?

E acima de tudo: aceitaríamos certas despesas públicas se as pagássemos imediatamente por impostos em vez de discretamente por dívidas?

Está na hora de usar uma velha expressão francesa para desengordurar o mamute.

Não ter um estado fraco. Pelo contrário.

Encontrar um Estado suficientemente forte para poder intervir maciçamente quando chegar a próxima crise real.

Pois se gastarmos constantemente as nossas munições orçamentais, o que restará quando a próxima 1929, a próxima 2008, a próxima pandemia ou outra crise que ninguém previu?

Foi exactamente onde o Keynes foi traído.

Mantivemos a medicação, mas esquecemos o diagnóstico.

O défice teve de ser contracíclico. Tornou-se estrutural.

A excepção tornou-se a regra.

E a ferramenta para salvar a economia em dias ruins é agora muitas vezes usado para evitar escolhas difíceis em dias comuns.

Portanto, a dívida não é o nosso verdadeiro inimigo. A dívida é uma ferramenta.

O perigo começa quando uma sociedade acaba acreditando que esta ferramenta ajuda a abolir o sacrifício.

Porque podemos adiar uma despesa. Podemos refinanciar uma dívida. Podemos baixar uma taxa de juros. Podemos pedir mais alguns anos.

Mas não podemos abolir a aritmética.

E a história quase sempre apresenta a mesma escolha às nações:

fazer os sacrifícios necessários quando eles ainda podem escolhê-los, ou sofre-los mais tarde, quando eles não terão mais a escolha.

Bernard Raymond Jabre

Libnanews
Bernard Raymond Jabre - translated by IATodos os seus artigos →

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