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No mito egípcio de Osíris, Byblos ocupa um lugar inesperado: o peito que contém o corpo do deus assassinado teria se desviado para a costa libanesa, antes de ser trancado em uma árvore se tornar coluna real. Uma história de luto, mar, madeira sagrada e laços antigos entre Egito e Fenícia.
Byblos não é apenas uma das cidades mais antigas do Líbano. É também um dos lugares onde os mitos do Mediterrâneo se cruzaram. Fala de Adonis, o rio vermelho de Nahr Ibrahim, os ritos de luto e renascimento. Mas outro relato, vindo do Egito, também coloca a cidade fenícia no centro de uma história de morte e ressurreição: a de Ísis em busca de Osíris.
A história é narrada por PlutarcoIsis e OsírisNão é uma crônica histórica. É um mito. Mas a escolha do Byblos não é aborrecimento. Por milênios, a cidade tinha tido relações comerciais, religiosas e simbólicas com o Egito. A UNESCO recorda que Byblos foi habitado desde Neolítico, que dá testemunho do início da civilização fenícia e que está diretamente relacionada com a história da difusão do alfabeto fenício.
Nesta história, Byblos torna-se mais do que um porto. Torna-se o lugar onde o mar põe um deus morto.
Osíris, o rei assassinado
O mito começa no Egito. Osíris é apresentado como um rei civilizador. Ele ensina agricultura, estabelece leis, organiza a adoração dos deuses. Seu irmão Seth, chamado Typhon por autores gregos, com inveja de seu poder, prepara-se para sua perda. Fez um peito com as dimensões exatas do corpo de Osíris, então organizou um banquete. O cofre será oferecido a quem o entrar perfeitamente. Os convidados estão a tentar. Nenhum está certo. Osíris alonga. A armadilha está a aproximar-se. A tampa é pregada, selada com chumbo, depois jogada no Nilo antes de ser levada para o mar.
O Museu Fitzwilliam da Universidade de Cambridge resume a mesma versão: Seth atrai Osíris em um cofre, tranca-o, e então o cofre sai do Egito para Byblos, na costa do Líbano de hoje.
O coração da história é, portanto, marítimo. O Nilo não fica com o corpo. Ele entrega-o ao Mediterrâneo. O deus egípcio deixa seu país, atravessa as águas, e falha em Fenícia.
O tronco chegou em Byblos
De acordo com Plutarch, o cofre que contém Osíris é descartado pelo mar perto de Byblos. As ondas gentilmente colocá-lo no meio de um arbusto ou bosque. A planta cresce rapidamente, torna-se um tronco grande, envolve o tronco e esconde-o em sua madeira. O rei do país, espantado com o tamanho da árvore, tem-no cortado e usado como uma coluna para sustentar o telhado do seu palácio.
Esta imagem é uma das mais fortes do mito. O corpo do deus morto desaparece numa árvore. A árvore torna-se uma coluna. A coluna entra no palácio. O corpo de Osíris encontra-se assim no coração do poder real de Byblos, invisível mas presente.
Temos de evitar confusão aqui. O relato de Plutarco não se refere explicitamente a um cedro do Líbano. Traduções muitas vezes evocam uma urze, arbusto ou às vezes um tamarisk de acordo com as tradições de leitura. Mas para um leitor libanês, a associação com madeira sagrada, madeira de prestígio e as ligações entre Byblos e Egito é óbvia. Byblos foi precisamente um dos principais portos através dos quais o Egito obteve recursos do Levante, incluindo madeira. As ligações entre Byblos e Egito são atestadas por arqueologia, comércio e influências religiosas.
O mito transforma assim uma antiga realidade — a rota marítima entre o Egito e Byblos — numa narrativa sagrada.
Isis chega à costa fenícia
Ísis, esposa e irmã de Osíris, vai procurar o corpo. Ela vagueia, pergunta, chora. Ela finalmente descobre que o cofre está em Byblos. Plutarco diz que ela chega à cidade, senta-se perto de uma fonte, abatido e silencioso. Mal fala com ninguém, excepto com as empregadas da rainha. Tece seu cabelo, perfuma-os com um cheiro divino, e assim atrai a atenção do paladar.
A rainha quer conhecer este misterioso estranho. Isis é chamada para ela. Ela ganha sua confiança e se torna enfermeira de uma criança. Plutarco deu vários nomes para a rainha: Astarté, Saosis ou Nemano, que os gregos teriam retornado por Atena. O rei chama-se Malcander.
Os detalhes do nome de Astarté são importantes. Ele trouxe a grande deusa fenícia para um relato egípcio. Mesmo que o texto seja grego e tarde, ele mostra um mundo onde os deuses circulam, traduzem e fundem. Isis chega em Byblos, mas ela encontra uma rainha cujo nome um dos possíveis refere-se ao panteão local.
A deusa, a criança e a imortalidade perderam
A próxima cena é estranha, quase brutal. Isis nutre a criança real não no peito, mas dando-lhe o dedo para chupar. À noite, ela tenta queimar as partes mortais de seu corpo para torná-lo imortal. Enquanto isso, transforma-se em uma andorinha e gira em torno da coluna que contém Osíris, empurrando lamentações. A rainha surpreende a cena, vê seu filho no fogo, grita. Com este grito, interrompe o rito e priva o filho da imortalidade.
O motivo é conhecido em várias mitologias: uma divindade tenta transformar uma criança humana em imortal, mas a intervenção assustada de um pai quebra o processo. Aqui, esta cena tem uma função precisa. Revela a verdadeira identidade de Ísis. A deusa deixa de ser uma estranha silenciosa. Ela aparece, pergunta a coluna, e recupera o que ela tinha vindo buscar.
A dor de Isis não é, portanto, passiva. Ela está a chorar, mas está a representar. Ela entrou no palácio, descobriu o pilar, obteve a madeira, libertou o tronco e assumiu o corpo de Osíris.
A madeira sagrada de Byblos
Plutarco relata que Ísis remove a coluna com facilidade, remove a madeira que cercou o peito, envolve-a em linho, perfuma-a e confia-a aos reis de Byblos. Ele acrescenta que, em seus dias, os habitantes de Byblos ainda adoravam esta madeira em um santuário em Ísis.
Esta passagem é crucial. Ele não está só a dizer que o corpo do Osíris passou pelo Byblos. Ele afirma que a cidade manteve uma relíquia da história: a madeira que continha o deus morto.
Tens de ter cuidado. Hoje não temos essa relíquia identificada, preservada e cientificamente ligada ao relato de Plutarco. Mas o texto mostra que, na época greco-romana, Byblos era visto como um lugar de Ísis, ou pelo menos como um lugar onde o mito egípcio poderia enraizar.
Esta tradição não é absurda no seu contexto. Os laços religiosos entre Byblos e o Egito são antigos. A grande deusa local, Baalat Gebal, « Lady of Byblos » foi reunido pelos egípcios de Hathor, e mais tarde Ísis em algumas interpretações. Estudos sobre as relações entre Byblos e Egito mostram que o santuário da Senhora de Byblos desempenhou um papel importante nestes intercâmbios religiosos e diplomáticos.
Byblos, usando deuses e materiais preciosos
O que torna o mito simbolicamente credível é o quadrado histórico de Byblos. A cidade era um porto essencial do Levante. Ligava a costa fenícia, o Egito, o Mediterrâneo oriental e o interior do Líbano.
O Egito precisava da madeira do Levante. Os cedros do Líbano, mas também outros recursos, entraram nos circuitos de construção, prestígio e adoração. As relações entre o Egito e Byblos não são um mero cenário literário. Eles são um fato importante na história do antigo Mediterrâneo Oriental. Um artigo na revistaSíria, dedicado às relações entre Byblos, Egito e Mesopotâmia no final do terceiro milênio a.C., recorda a densidade desses contatos através de objetos, inscrições e depósitos encontrados no local.
Neste contexto, o relato de Isis em Byblos funciona como uma tradução mitológica de relações muito reais. As naves estão a mover-se. A floresta está a mover-se. Os deuses estão a mexer-se. Os nomes circulam. O que vem do Egipto pode acontecer ao Byblos. O que é sagrado em Byblos pode ser entendido no Egito. As religiões não estão fechadas dentro das fronteiras nacionais que ainda não existem.
Byblos é, portanto, o lugar perfeito para este tipo de narrativa: perto o suficiente para pertencer ao mundo egípcio ampliado, estrangeiro o suficiente para se tornar um lugar de exílio, de busca e revelação.
O luto de Ísis e o retorno de Osíris
Depois de recuperar o tronco, Isis atira-se a ele e faz um grito de dor. Plutarco insiste no poder desta lamentação. A cena é violenta. O corpo é encontrado, mas a morte não é apagada. Isis leva Osíris de volta, mas não traz imediatamente a ordem de volta. O deus permanece um corpo para chorar, para proteger, para reconstruir.
A continuação do mito ocorre novamente no Egito. Seth encontra o corpo, corta-o em pedaços e dispersa-os. A Isis volta à procura de fragmentos. Ele os reúne, reconstitui Osíris, e então permite o nascimento ou afirmação de Horus, que se tornará rival de Seth e garante da realeza egípcia. O Museu Fitzwilliam lembra que estes relatos são centrais para o pensamento egípcio de realeza e renascimento: o rei vivo é associado com Hórus, enquanto o rei morto é associado com Osíris.
Byblos é, portanto, um passo, mas um passo decisivo. Foi onde o corpo foi encontrado pela primeira vez. É aí que o Isis transforma a sua busca numa recuperação material. É onde o mar faz o que tinha tomado.
Uma lenda egípcia, mas uma memória libanesa
Seria errado apresentar o mito de Osíris como uma lenda nascida no Líbano. É uma história egípcia. Seus principais atores são egípcios. Suas estacas afetam o reino, morte, renascimento e ordem cósmica do antigo Egito.
Mas seria como reduzir para apagar o Byblos da história. Plutarco dá à cidade fenícia um papel central. A mala do Osíris não falha em lado nenhum. Ele vem para Byblos. Está enrolado numa árvore. Torna-se uma coluna num palácio. Isis está no local. A madeira é então venerada na cidade.
Nesta série de lendas antigas relacionadas ao Líbano, Byblos aparece duas vezes como uma cidade de luto e retorno. Com Adonis, lamenta um jovem deus associado à vegetação, ao rio vermelho e aos ritos sazonais. Com Osíris, ela recebe o corpo de um rei divino do Egito, trancado em uma árvore, então recuperado por uma deusa de luto.
O ensaio é impressionante. Byblos não é apenas uma cidade de comércio e alfabeto. É também, na antiga imaginação, uma cidade onde os deuses mortos chegam, onde as mulheres divinas choram, onde a madeira e a água mediam entre o desaparecimento e o renascimento.
Madeira, mar e memória
A história de Ísis em Byblos repousa em três elementos: mar, madeira e luto.
O mar carrega o tronco. Liga Egito e Fenícia. Ela não destrói o corpo, move-o. A madeira esconde Osíris. Ele lambe, embrulha, transforma-a numa coluna. Ele moveu o deus da tumba para a arquitetura. O luto de Ísis dá à narrativa sua tensão humana: uma mulher divina busca o corpo amado, atravessa países, em silêncio, chora, astuta, e então recupera o que resta.
É uma história de grande força porque fala de amor, política e matéria. Osíris é um rei assassinado. Ísis é viúva e mágica. Byblos é um porto e palácio. A árvore é um túmulo e uma coluna. Nada é meramente simbólico. Tudo é duplo.
Uma questão de patrimônio
Hoje, o visitante de Byblos vê acima de todas as muralhas, templos, restos romanos, o castelo cruzado, o porto antigo, as camadas sucessivas de uma cidade habitada por milênios. Ele não vê o pilar Osiris. Ele não vê o santuário de Ísis descrito por Plutarco. Ele não consegue identificar a fonte onde a deusa se sentou em silêncio.
Mas a força de um mito nem sempre depende de uma pedra preservada. Também depende de como um lugar foi concebido pelos Antigos.
Byblos foi importante o suficiente para entrar no grande relato egípcio da morte de Osíris. Isso diz muito. Uma cidade comum não teria recebido esse papel. Havia um porto bem conhecido, antigo, ligado ao Egito, carregado de madeira, adoração e prestígio. Uma cidade capaz de ser entendida como uma extensão sagrada do mundo egípcio era necessária.
Byblos, uma cidade onde os deuses voltam
Em Nahr al-Kalb, um cão supostamente avisou os habitantes de que os invasores tinham chegado. Em Afqa, o sangue de Adonis teria corado o rio. No Tyre, o cão de Melqart teria descoberto roxo. Em Sidon, Eshmoun foi curado pela água sagrada. Em Beirute, Beroe deu à cidade uma cara de ninfa. Com Ísis e Osíris, Byblos acrescenta outra camada a este Líbano mitológico: a do corpo divino do mar.
Esta história não faz de Byblos uma cidade egípcia. Pelo contrário, mostra o seu poder como uma encruzilhada. A cidade fenícia poderia receber um deus estrangeiro sem perder sua identidade. Poderia integrar Isis, Osiris, Astarté, Baalat Gebal, Hathor e Adonis na mesma paisagem de madeira, água, mar e santuários.
Talvez essa seja a verdadeira mensagem do mito. Byblos não era apenas um porto através do qual as mercadorias passavam. Era também um lugar pelo qual os deuses passavam.
O tronco de Osíris provavelmente nunca se deslocou fisicamente para a costa libanesa. Mas a história acomodou o Byblos. E permaneceu lá, como outra prova desta evidência muitas vezes esquecida: o antigo Líbano não só deu alfabetos, navios e pedras. Também serviu de palco para os grandes mitos do Mediterrâneo.


